• Joia

Fuga de Alcoitão

Traduzido por João Chalana


Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão

Esta história envolve baratas. À semelhança de Gregor Samsa que acordar como uma barata na Metamorfose de Kafka, agora tenho uma nova barata na minha vida: ‘The Alcoitão Cockroach’ - A barata de Alcoitão. Voltarei a este ponto mais adiante.


A expressão “Matar Saudades”, é um ditado português antigo. Que literalmente expressa o desejo de querer regressar a algum lugar ou rever alguém – “To kill homesickness”. No meu caso, trata-se de provar os meus pasteis de bacalhau favoritos novamente, estar perto do meu castelo de Leiria mais uma vez, ver o oceano e o farol de São Pedro de Moel, por onde passei as minhas horas mais felizes.


A minha experiência no passado mês de novembro permitiu-me sobreviver, porém quase matou um pouco das ‘saudades’ que refiro. O meu sentimento de segurança, dignidade, e até o meu sentido de humor. Demorarão um pouco mais do que esperado, até que regressem.

Durante muito tempo ouvi falar que Alcoitão seria o local indicado para a minha reabilitação, o melhor de Portugal, reconhecido em toda a Europa por ajudar a ressuscitar membros que em outrora tiveram mais vida, quer se trate de um cidadão comum ou de um veterano.

Adequa-se perfeitamente à minha abordagem - Sou inteiramente a favor de desafiar a relutância neuromuscular entre a metade direita do meu cérebro e a metade esquerda do meu corpo - ioga, ciclismo, dança fantasma, o que funcionar. Ninguém sabe o que está por trás do mau funcionamento destes recetores, no entanto, são visíveis francas melhoras no que toca à sinapse comunicativa ao longo do tempo.


Seja de que forma for, o meu coreógrafo interior fala mais alto! Os meus músculos mostram-me o caminho, e os meus neurônios dançam o tango! Depois de muitos meses a depositar a minha fé no labiríntico sistema de saúde público, tenho o prazer de finalmente ter conseguido uma consulta, a qual só se tornou disponível em virtude do meu nascimento.


Em Alcoitão, sentava-me sempre no poleiro mais alto de Cascais, com uma vista para a baía azul que ingenuamente negligenciava, depois de um dia cujo intenso trabalho terapêutico se expressou com honestidade, tal como um sábio inválido, saído da mágica montanha de Thomas Mann, enquanto este se acomoda calorosamente para tomar o seu chá da tarde, e observa espirituosamente a política mundana dos que estão mais distantes e mais a baixo.

Exceto - o que descobriria posteriormente – a presença de uma empresa privada que agora gere o famoso hospital. Economizando conforme podem, como qualquer empresa.


Especialmente no andar superior, que permite acesso às enfermarias onde os olhares são mais discretos. No primeiro andar, do rés do chão, tudo se apresenta esplêndido e luminoso, pelo menos no meu vislumbre das salas de terapia a caminho dos elevadores de acesso ao internamento. Já não é de hoje que luto para me desvincular das conotações anglo-saxônicas que a próxima frase por si só implica ­- Eu não estou aqui para a ser internada numa prisão ou mesmo num cemitério - correto?


Nessa mesma manhã fui escoltada por um grupo de ilustres. Os meus amigos diplomatas superqualificados, prontos para me defenderem em todas as línguas. A minha existência de nativa-expatriada estava seguramente em boas mãos. Fui gentilmente escoltada através dos procedimentos administrativos com a sua ajuda, enquanto se despedem discretamente e eu sigo o meu caminho de cadeira de rodas de regresso entre corredores.


Nada levaria a crer que ainda no dia anterior inspetores da saúde Portuguesa haviam fechado o local, derivado a uma contaminação das cozinhas! Foi de forma discreta que as notícias locais deram parte da ocorrência, ao referir que os trabalhadores já teriam conhecimento do problema, mas sem nunca informar os pacientes.


Por esta razão, cinco horas mais tarde estou de volta aos elevadores a tentar contactar os meus amigos com um carro disponível, para que por favor, me viessem buscar.


Condições anti-higiênicas, equipamentos antigos, salas lotadas ... O hospital Botkina de Moscovo, há 40 anos atrás, apresentava melhores condições, e aquele lugar fez-me sentir muito assustada.


No entanto, ninguém acreditava no que estava a dizer, o meu relato era interpretado de forma inconsistente tendo em conta a reputação convencional sobre aquele lugar.

Calma Joía, Calma! Acalma-te, está tudo bem, não podes desistir. Vais-te adaptar, são só os primeiros dias! – Diziam os meus amigos.


Não, isto não se trata de me adaptar. Não… eu não vou ficar melhor. – Respondia.

O pânico, até então contido, girava fora de controlo. É neste momento que quatro funcionários com batas brancas me rodeiam. Abandonar as instalações era proibido sem acompanhamento presencial, por isso cedi e concordei ficar no mínimo uma semana.

Mais seis horas que passam, foi o que bastou até que voltasse a avistar a barata. A rastejar na minha direção na sala de jantar, onde a comida proveniente da Santa casa da Misericórdia, causaria tumultos na ilha de Rikers. Enquanto isso, eis que surge um enfermeiro. Agarra-me o braço, forçando um aparelho de funcionamento duvidoso que produz uma pressão continua e descontrolada, indiferente aos gritos que ilustravam o meu desconforto.


O enfermeiro insiste que o aparelho de pressão arterial funciona nas devidas condições, deixando-o ligado ao meu braço por muito mais tempo do que o necessário.


“Isto não é uma prisão, pode sair quando quiser” - é o que me dizem. Facto é que não consigo chegar com os pés ao chão. E assim que as barras laterais de segurança da cama se fecham, só me é permitido voltar a levantar de manhã. Quando preciso de pedir ajuda, nunca está ninguém disponível para conferir se preciso de alguma coisa. Os meus sapatos e bengala são colocados bem longe de mim, já com o seu intuito estratégico.


“Bem, ela é doida, é melhor chamarmos o Médico”


Mas acima de tudo isto, o que consigo achar de mais estranho deste lugar, mais assustador que as baratas, foram os médicos. Não me refiro aos especialistas, nem tão pouco aos terapeutas, falo dos médicos que são destacados por cada andar, e assim atribuídos por cada paciente.


Assemelham-se a bonecos da Barbie e do Ken. Visivelmente descaracterizados, fruto das suas cirurgias plásticas e maquilhagem, os seus olhos abertos que colocam em evidência a pele profundamente esticada.


Senti-me igual a um Morlock, a quem arrastam até à superfície ao jeito de um travesso Eloi, como referência ao universo de H.G Wells, onde sou confrontada pelo manifesto de um destino subterrâneo. (Quem são estas pessoas? Nunca em Portugal vi tais espécies, nunca em nenhum restaurante ou praia, nem mesmo pelas ruas de Lisboa. Serão estes os filhos e filhas da oligarquia local, a desfrutar o seu primeiro estágio em medicina? Filhos do filme Metrópolis, cujo os pés nunca tocam no solo?)


Por isso menti. Sem que ninguém notasse, arranjei maneira de me vestir e arrumar as minhas malas e consegui sair, até chegar ao corredor. Abordada por enfermeiras proeminentes e primorosos médicos, continuei no meu desastrado exercício entre equilibrar a minha bengala e as minhas malas, até que conseguisse chegar aos elevadores, mantendo a minha posição em alto e bom som, de que os meus fiéis amigos aguardam por mim junto à receção, e que me iriam levar direta para casa. Senti que andei um quilometro até chegar à receção. Nessa noite o meu motorista da Uber tornou-se uma pessoa deveras importante na minha vida.


Abandono assim um dos possíveis e melhores hospitais de reabilitação. Rapidamente se dividem opiniões entre os meus amigos Europeus, entre casas grandes e casas pequenas , à semelhança de Ravenclaw e Hufflepuff, decretando a minha possível falta de carácter ou convicta força de vontade, olhos fechados ou abertos – ‘eyes closed or wide open’, dependentes da boa vontade proveniente de Bruxelas no cumprimento das suas necessidades essenciais e contas bancárias.


Devias regressar e fazer a terapia no ambulatório! Sim, claro, os guardas da ilha de Rikers de certeza que também tinhas boas instalações. Não me é possível esquecer o que vi na enfermaria de neurologia.


Pessoas com rendimentos semelhantes aos meus, que não conseguem permanecer dentro da bolha do sistema de saúde privado, compreendem de imediato ao que me refiro.

Os fluxos de rendimentos estrangeiros só têm beneficiado a antiga moeda Portuguesa, abrindo espaço à subida da especulação imobiliária e outras despesas para toda a gente.

No interior do país as prateleiras das escolas apresentam poucos livros, as clínicas ainda carecem de cuidados básicos e as necessidades exige um malabarismo financeiro de mês para mês.


Face a uma UE revestida de modernidade, porém distante da liberdade e dos seus cravos, sinto o coração de um antigo ditador a bater, os fantasmas dos seus súbditos que espreitam entre as sombras. Observo uma fachada a deteriorar-se derivado ao sol e a anos de negligência, as longas filas e os joelhos ensanguentados daqueles que suplicam junto à capela de Fátima, ouço as suas vozes que uma vez mais, imploram por perdão e por piedade, numa terra bela mas cruel.


“I can’t go home again”, diz Thomas Wolfe. Uma verdade, com tantos significados. O castelo será mais pequeno e o farol menos alto. A casa em estuque amarelo junto ao Jardim Escola João de Deus já não existe, mas aquela sensação de medo ao lembrar-me de um louco homem careca, que insultava as crianças do lado de fora do portão da escola ainda me acompanha. Os amigos de infância estão mais velhos e cinzentos, mas os nossos olhos não deixam de brilhar quando partilhamos as nossas preciosas memórias.


Na obra de Simone Weil - ‘Gravity and Grace’, o autor escreve: "Uma aflição muito grande coloca um ser humano sob pena: desperta repulsa, horror e desprezo".


Peço desculpa se trago à tona o que não está reservado aos olhos de um expatriado; o local onde nasci, a minha evidente incapacidade, o meu karma, a minha missão - por mais definida que seja, fui enviada para ver o que não posso esquecer e para dizer o que já não consigo esconder.


Já não posso voltar para casa. Sim, o castelo será mais pequeno e o farol menos alto. Mas o oceano será sempre magnífico, numa profunda abundância azul-cinza.


A antiga placa de azulejos no penhasco de São Pedro de Moel ainda lá está, cimentada num novo estuque branco: "My soul belongs to God, my body to the waters of the sea.", ‘A minha alma pertence a Deus, e o meu corpo às águas do mar’.


O medo apodera-se de nós quando estamos debaixo das ondas, cujo peso e sensação de afogamento são insuportáveis, onde as chamadas não são escutadas, de tão densa que se torna a gravidade que nos puxa para baixo, onde só uma abençoada virtude nos consegue erguer ao encontro da cura, mais do que uma vez.



18 Fevereiro 2020




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